mar,
li ontem sobre tua arrancada de mariposas. dois pingentes caídos no mar. eu sempre morei em casas que alagavam. todas as minhas bonecas se chamavam Marina. e milhares de outras sentenças que poderiam iniciar um livro: assim, convite
tua arrancada de mariposas - esse início com que batizo meu texto - falava de um final, onde todas as possibilidades levantam voo. a pessoa amada represando todas as asas, o pó. partem os bichinhos em revoada
me deitei por alguns segundos nesse sofrimento quente. porque também estou eu trabalhando pra imortalizar um fim - contra a minha vontade, semente que queria continuar sendo
dos últimos seis meses pra cá, todos os meus sonhos foram caindo degrau por degrau. de que é feito o chão que me detém? é difícil até me encontrar detida. tateio possibilidades, essa recusa por se deixar vencer. mas já não me sou. há muito tempo não me venho sendo
o desamparo me fere e acompanha, é algo da infância. dia desses eu estava na casa de uma pessoa - muito, muito amada - e ocupei o espaço com um certo estranhamento. estranhamento de inseto que busca se alojar num corpo hospedeiro. refugiada atrás de cidadania, queria gritar “sim, por favor, me conceda sua nacionalidade,
me dê um nome”
mas, mar, não é que estou indo embora?
olho pro horizonte e temo o apagamento das planícies. o esquecimento dos porquês. como conceber que a memória do início já não se faça presente? nuvens. nuvens
o trajeto do desejo é um só, ascensão e queda. despencar do sonho não é enterrar o desejo, mas é enterrar um mundo possível. e se a vida é uma apenas, como contornar a dor? tendo que cravar em rocha: “nunca mais nesta”.
é uma longa corda até a eternidade. pressinto o tempo alargado por algumas coisas: o rosto indelével de minha irmã, sua imagem me lembrando ano após ano de que são feitos os contornos da alegria; o café da manhã que virou tarde que virou casinhas verde-e-brancas da partida de xadrez em que ele me deu uma surra, mas me fez sentir mais próxima da delicadeza de Deus
podes rir, não exagero. desde que meu pai me ensinou a jogar xadrez, meses atrás, algo se passou às placas tectônicas. passei a achar as coisas do mundo amáveis - sendo coisa do mundo, também eu
mas as linhas - da eternidade, do desejo, do amor - não são retas, né? sem querer, me vi invocando raios, relâmpagos e tempestades, instabilidades provocadas por memórias ou sombras ou medos ou a fragilidade absoluta de perceber que estou deixando essa cidade?
essa que, como falaste, talvez tente, através das escadarias estreitas, manter em dia seu sonho de sumir
há anos reescrevo a frase de matilde no meu caderno. “meu filho tente não fazer de ninguém uma cidade”. estou perdendo duas cidades
três países
mar - substantivo do qual me sinto tão próxima -, eu estou perdendo tudo
e eu vi o amor. vi-o chegar, sentar-se à minha mesa. reconheci seu rosto, matutei que almoço servir. recorri, claro, às receitas - bem ou mal, àquelas escritas à mão por minha mãe no caderninho branco e rosa. como lembro disso, do caderno esturricado de instruções
eu vi o amor e, agora que o conheço, sei que o amor é mesmo sobre assistir ao hóspede se deliciar com os pratos quentes. o que quero dizer é que não importa que a refeição não seja compartilhada. enxergas a felicidade da pessoa comendo, se satisfazendo - e isso, isso apenas, te leva a dar pulinhos de felicidade. ver.
esboçar com os olhos o cheiro do seu riso
agora,
não sou nada além de um corpo envolto em falta
carta à escritora Mar Becker
obrigada pelas palavras-mães. me sinto frequentemente tão pouco filha

